Falta agua, sobra esgoto

Além de também sofrer com a falta de água que se espalha por toda a Bacia Hidrográfica do Rio Doce, o ponto em que o curso d’água se forma recebe o esgoto carregado pelos seus dois formadores: o Rio Piranga e o Rio do Carmo. O Piranga, cuja bacia drena a área de 77 municípios, recebe resíduos generalizados, que chegam a assustar pelo tamanho da agressão ao meio ambiente.

Em Ponte Nova, último centro urbano antes da formação do Rio Doce, as manilhas despejam o esgotodos 57 mil moradores 24 horas por dia sem tratamento adequado.

Em abril do ano passado, em série de reportagens sobre a situação das nascentes dos rios mineiros, o Estado de Minas mostrou que o Rio Doce já nascia com 5.172% de coliformes termotolerantes acima do limite permitido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). A degradação ambiental do Piranga também contribui para a perda do volume que chega ao Doce, graças ao assoreamento. No lugar de uma vegetação capaz de proteger o manancial, é possível ver lixo, e os muros de casas, que são construídas quase no leito, em Ponte Nova. A variedade de canos e manilhas é grande, todos expelindo um líquido de aparência viscosa. O esgoto deixa a água com a cor verde e piora ainda mais a qualidade em um momento de escassez, pois se mistura em uma quantidade menor do recurso hídrico, o que dificulta a depuração, segundo o biólogo e especialista em recursos hídricos, Rafael Resck.

“O retrato geral do Rio Doce pode ser analisado na região onde ele começa a correr. Não podemos querer que um rio que sofre tantos problemas desde o seu início chegue naturalmente à sua foz. É muito esgoto urbano e industrial despejado, captações desconhecidas dos órgãos públicos e mineração ao longo de toda a bacia”, afirma o especialista.

Segundo o diretor do Departamento Municipal de Água, Esgoto e Saneamento de Ponte Nova, Guilherme Resende Tavares, o município já concluiu o seu plano municipal de saneamento e está elaborando o projeto da Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) do município. Ele estima que em dois anos já seja possível tratar pelo menos parte do esgoto. A capacidade será de 192 litros por segundo, o que excede a demanda da cidade. O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Piranga (CBH/Piranga), Carlos Eduardo Silva, diz que das 77 cidades da bacia, 56 foram escolhidas para elaboração dos planos de saneamento e 30 já tiveram seus planos concluídos.

Segundo o secretário-executivo do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH/Doce), Luiz Cláudio Figueiredo, os investimentos em saneamento somam R$ 21 milhões, fruto da cobrança pelo uso da água na bacia. Dos 228 municípios em toda a área de Minas e Espírito Santo, 156 estão incluídos para elaboração dos planos e todos devem concluir os estudos até o fim do ano. Além disso, Figueiredo cita o investimento de R$ 2 milhões para a aquisição de 240 irrigâmetros, equipamentos desenvolvidos pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) para otimizar o processo de irrigação ao longo da bacia.

Por fim, o edital de um programa de recuperação de nascentes e áreas de proteção permanente está sendo elaborado, cujo objetivo é escolher uma empresa para desenvolver as ações necessárias para melhorar a recarga do sistema hídrico nesses locais. “Essas ações são referentes ao quadriênio de 2012 a 2015. Nesse segundo semestre começarão as discussões para a aplicação de recursos nos próximos quatro anos e certamente a questão da escassez será a principal norteadora”, afirma o secretário. (GP)

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